A Capela da Santa Cruz, situada no centro do Bairro dos Forjos, nasceu de forma humilde, construída de pau-a-pique e coberta de sapé, nos finais do Século XIX. Sua simplicidade evocava o “ranchinho” do presépio do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nessa capelinha, em clima de fé e devoção, os moradores da época reuniam-se, aos sábados, para a reza do terço, em louvor a Nossa Senhora. Dizem os antigos que um andarilho, passando pelo bairro dos Forjos, quis marcar sua passagem e sua fé em Deus, deixando no local uma cruz fincada na terra. A partir dessa época, começou espalhar por aquelas paragens a devoção à Santa Cruz.
Com a chegada do Padre Adolfo Fabri, em 1958, o Sr. Florival Alves de Almeida e sua esposa Olga Migliorini de Almeida reafirmaram a doação que o Sr. Benjamin de Almeida, já havia feito, “de coração”, há anos atrás, de uma área de terra com 600,00m2, para a construção da capela. A Escritura Pública de Doação à Arquidiocese de Pouso Alegre, foi lavrada no dia 9 de dezembro de 1960, no Livro nº 13, fls.40, do Ofício do 1º Tabelionato de Notas, da cidade de Extrema.
O Sr. João Batista Magalhães, fazendeiro abastado do bairro, custeou toda a construção e a capela foi inaugurada em 1961, com muita festa. A capela recebeu a denominação de “Santa Cruz.” Anteriormente, o Sr. João já havia construído uma capelinha na beira da estrada dos Forjos, para sinalizar o lugar, onde Tarcisio Gomes havia morrido, vítima de um assassinato. João Magalhães, homem profundamente religioso, parecia gostar de construir capelas, pois por ocasião de uma enfermidade que o acometera, prometeu a Nossa Senhora, a construção de uma capela em sua fazenda, se recebesse a graça da cura. Foi curado, e em seguida de seu restabelecimento, erigiu uma capela em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios. Procurou também o Pároco e pediu para ser inscrito na Irmandade dos Irmãos do Santíssimo. Generoso, estava sempre pronto para atender os que o procuravam, principalmente, os doentes. Não media esforços para levá-los à Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista ou à farmácia do Sr. Olinto Soares. Incentivava a celebração das festas de São Gonçalo e as procissões em honra a São Cristóvão e São Benedito.
A partir de 1961, no mês de maio de cada ano, até à década de 90, comemorava-se a Festa de Santa Cruz. Com a reforma do Calendário Litúrgico, essa festa passou a ser celebrada no dia 14 de setembro. Há décadas atrás, para cada ano, era escolhido um casal de festeiros, que se responsabilizava pela arrecadação de prendas e pela organização do evento, de acordo com as orientações do Pároco. Semanalmente, rezava-se o terço nas casas, cujos donos encarregavam-se de organizar o encontro, recebendo os convidados e os “puxadores da reza”. O terço era cantado e as ave-marias eram entoadas, com divisão de vozes. Após a “reza”, servia-se um farto café com os quitutes típicos da região. Os “puxadores do terço” eram: Sr. Benedito Emídio, João Batista Magalhães, Alvarino Costa da Silveira, Joaquim Sales de Almeida, José de Almeida (Rosa) e Lázaro Alves. Havia também o “Baile Comunitário do Bairro”, realizado em uma das casas dos moradores, onde o terço não tinha sido rezado naquela semana. Os bailes, no bairro dos Forjos, provêm de uma tradição muito antiga, que remonta a época em que lá se instalaram os primeiros imigrantes italianos. Eram animados ao som da sanfona, do pandeiro, da viola, do bandolim e do cavaquinho.
A catequese foi iniciada no bairro através da Professora Eunice Aparecida de Andrade Silva, quando em 1960, assumiu as aulas na Escola Municipal Bueno de Andrade. Dirigida por sua consciência cristã, ministrava aos seus alunos aulas de religião na escola. Em horário diferente ao escolar, reunia as crianças para a catequese. Teve também a colaboração de Dona Eunice Silveira e de Cidinéa Silveira como catequistas.
Raramente, as missas eram celebradas pelo pároco da época, pois havia um único sacerdote na paróquia. Quando havia missa, o povo reunia-se na capela e sempre havia uma família encarregada de convidar o celebrante, o sacristão e o motorista, para o almoço, que era preparado com capricho pela dona da casa. Padre Adolfo ia à Capela de Santa Cruz, em um Jeep “de aluguel”, de propriedade do Sr. Juvenal Luiz Maximiano.
Em 1977, iniciou-se um novo ciclo na vida da comunidade dos Forjos. A “Campanha da Fraternidade” começou a ser trabalhada com reflexões, orações, cânticos e dramatizações, sob a orientação da Prof. Eunice Aparecida de Andrade Silva e Maria Aparecida Silveira. Ambas assumiram também papel relevante na organização de eventos e na festa da padroeira.
Em 1991, o Sr. Alvarino, com o aval do Padre Adolfo, iniciou a construção da barraca de apoio à capela. A comunidade colaborou, doando tijolos, telhas e outros materiais de construção, assim como a mão de obra. Este local passou a ser o escolhido para as reuniões da comunidade, tanto para as atividades religiosas como para as de lazer. Na barraca, realizavam-se os “Chás de Cozinha”, os “Chás de Bebê”, e outras festas, proporcionando aos moradores, momentos agradáveis de congraçamento fraterno.
Nessa época, a comunidade elegeu uma diretoria sob a presidência do Padre Adolfo, cujo objetivo era administrar a barraca e organizar eventos. Os leigos participavam da evangelização, através da apresentação de dramatizações, peças de teatros, “Encontros de Nossa Senhora”, “Caminhadas”, coroações e festivais de músicas. O ano se encerrava com a “Peregrinação do Menino Jesus” pelas casas, culminando com uma peça teatral e uma “Mesa de Confraternização”, farta de doces e de salgados. Na Semana Santa, a comunidade contou, por diversas vezes, com a presença do Padre Antonio Maria, que celebrava “ao vivo”, o Domingo de Ramos, com doze senhores vestidos de apóstolos e um jovem montado num jumento, representando Jesus Cristo. Percorriam a estrada dos Forjos, até a capela, levando atrás de si, por onde passavam, um elevado número de pessoas.
A comunidade crescia em número e em graça. Com a chegada do Padre Maurício, nos finais da década de 90, as missas tornaram-se mensais, pois a paróquia já contava com um veículo próprio e ele mesmo o dirigia. As celebrações eram, geralmente, à noite, e sempre havia uma família escalada para oferecer o jantar ao padre. Nessa década, o jovem Djalma Alves de Almeida (Jaime) passou a ministrar a catequese e fazer as procissões, rezando o terço e cuidando da capela, com carinho e esmero. As procissões deixaram de percorrer as estradas e começaram a ser realizadas ao redor do campo de futebol.
O pároco orientou a diretoria que adotasse um Livro Caixa e um Livro de Atas e que houvesse eleições bienalmente. Depositou confiança nos fiéis e estimulou a Diretoria em seus trabalhos. Dizia que ninguém poderia fazer melhor do que os próprios integrantes da comunidade, que conhecem as suas necessidades e que as tradições deveriam ser preservadas. “Ninguém pode interferir na tradição, fé e identidade de uma comunidade, porque tudo e todos passam, mas ela continuará existindo.” A comunidade, estimulada pelas palavras do padre, trabalhava para arrecadar fundos e equipar a cozinha com móveis e utensílios adequados.
Os encontros de evangelização passaram a ser mais frequentes e durante a Semana Santa e Páscoa, havia Via-Sacra, Procissão do Silêncio, Festa da Ressurreição e Confraternização.
Muitas vezes durante o ano, realizavam-se “Forrós”, com venda de bebidas, refrigerantes, salgados e jogos que muito beneficiavam a capela e uniam as pessoas.
Durante a década de noventa, chegou à comunidade o “Movimento da Renovação Carismática”, e uma nova diretoria foi eleita. Nessa época, a diretoria não alcançou muito êxito. Os eventos diminuíram e o entusiasmo da comunidade foi enfraquecido.
Com a chegada do Padre José Franco, em 2007, a Diretoria foi extinta, pois as Paróquias da Arquidiocese de Pouso Alegre estavam sendo reestruturadas. As Paróquias deveriam criar, em cada capela, o Conselho Pastoral, de acordo com a sua realidade e condições. O Conselho não tem poder de decisão administrativa. “Decidir” sobre qualquer projeto elaborado pelo Conselho ou por algum membro da comunidade é competência do Pároco.
Não faltam, na comunidade, as romarias à Aparecida do Norte, à Canção Nova e às missas celebradas pelo Padre Marcelo, dirigidas pelo Sr. Célio Migliorini. O povo manifesta sua fé e sua união cantando, rezando, louvando e divertindo-se.
Há uma Congregação de Religiosas, fundada pelo Padre Antonio Maria, sediada no Bairro dos Forjos. As irmãs vivem em um convento, denominado de “Ain Karin”, que significa “Fonte da Vida”. Todo o seu ambiente é um convite à oração e à meditação. Durante as férias escolares, as irmãs atendem as crianças das creches do Padre Antonio Maria, localizadas em São Paulo. Durante o ano todo recebem também os turistas, que procuram um lugar tranqüilo para descansar e comprar artesanatos, doces e geléias, produzidos pelo convento das irmãs.
A Comunidade de Santa Cruz, do Bairro dos Forjos, vem traçando uma trajetória de muitas conquistas, de fé e de esperanças. Tem muito que se alegrar de suas tradições e de suas realizações.
A Cruz de Cristo, tão venerada pelos antigos moradores católicos do bairro, que nela encontravam alívio para as suas dores, deve ser para todos os atuais moradores, sinal de Salvação e caminho para a Ressurreição.
Obs.
A palavra “Forjos” não se encontra nos dicionários de Língua Portuguesa. Possivelmente, essa variação do nome “FOJOS”, que significa “covas tapadas por galhos”, “armadilhas”, foi alterada pelo próprio povo ao longo dos anos. No “Livro Tombo” da Paróquia de Santa Rita de Extrema e nos Livros de Atas da Câmara Municipal local, aparecem os dois termos: “Fojos”, primeiro, e mais tarde “Forjos”.


